Histórias da Arte: o Barroco na Europa e na América Latina [1-2/16]

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Desde 15/8 estou cursando o “Histórias da Arte: o Barroco na Europa e na América Latina“, realizado pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo (Masp). As aulas vão até 5/12 e vou publicando as minhas notas aqui até lá. Aula 1 O barroco envolve uma rede de relações e influências mútuas que atravessa o mundo. Portugal levou o gênero ao Japão, e elementos figurativos japoneses aparecem no barroco brasileiro. O “abacaxi”, entre outros temas que foram agregados ao estilo para que fizesse mais sentido aos moradores da América, aparecem também em obras na Europa. Na América, é fundamental a mão de obra indígena na construção das obras do barroco, sob supervisão dos jesuítas. Também o conhecimento botânico dos locais transformou o gênero — os indígenas dispunham de um modo de produzir tinta dourada que caiu como uma luva para os padres. Nesse sentido, foi citada esta referência da época: “Da Grande Habilidade e Aptidão dos Índios“, da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Aula 2 Análise da obra de Gian Lorenzo Bernini, para quem  o barroco consistia em uma arte da combinação, no belo composto. Compreendi que isso se dá pelo entendimento de como as suas esculturas se incluem em cada contexto, como dialogam com outras obras próximas e com os espaços em que se colocam — como as igrejas e a cidade como um todo. Há uma cenografia no seu trabalho de escultor, ele que também trabalhou como cenógrafo de teatro. Funcionam nesse sentido os grupo (obras com mais de uma escultura): o ponto de vista determina a narrativa que ela transmite. Um exemplo é O Rapto de Prosérpina, em que de acordo como nos colocamos, se ressalta mais a potência de Hades, o desespero de Prosérpina, ou a monstruosidade de Cérbero. Neste vídeo da Khan Academy dá pra notar um pouco disso. Outra marca do barroco transparece com magnificência em Bernini: a ideia de “enganar prazerozamente’. A pedra ganha as características da carne (a maciez ), dos tecidos (se amassa, encrespa, afofa) etc. O Rapto de Prosérpina é também um exemplo disso: a mão de Hades na coxa da deusa. Outra é Apolo e Dafne, em que a pedra é gente que se transforma em árvore. Me fascina essa captura de um instante terrivelmente dramático (os exemplos dados são marcados por isso), em que os personagens são tão carregados de tensão que não há a imobilidade da escultura, se forja em uma vibração, algo que contém em si as consequências (podemos avançar imaginariamente por elas) e ao que retornamos porque é a sua fonte ou momento decisivo. — Outras referências citadas: Heirich Wölfflin Propôs o barroco não como um movimento determinado, mas como princípio de evolução dos movimentos artísticos. James Clifford Que afirmou, parafraseio, “os museus são arenas de encontros sociais, não armazéns estáticos de objetos”.

Lúcia Maciel Barbosa de Oliveira: “Pesquisar Exige Ousadia”

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As investigações de Lúcia Maciel Barbosa de Oliveira estão na intersecção entre cultura e informação, no estudo de como circulam sentidos e se formam práticas sociais. Docente da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, Lúcia é doutora em Ciência da Informação (acesse a sua tese: “Corpos Indisciplinados: Ação Cultural em Tempos de Biopolítica“), mestre em Ciências da Comunicação, graduada e licenciada em História. Nesta entrevista, ela comenta os seus princípios como pesquisadora e as condições da pesquisa em sua área: “A Ciência da Informação ainda não trabalha de maneira adensada a dimensão social das ações de informação”. Como é a sua relação com a Ciência da Informação, por que se interessou em aprofundar-se nesse campo em vez de outros? Interessa-me, sobretudo, a interface entre Informação e Cultura — área de concentração do nosso Programa em Ciência da Informação — dois elementos fundamentais da contemporaneidade, instâncias centrais dos processos sociais, do desenvolvimento humano e da consolidação democrática. Interessa-me, pessoalmente, compreender a informação como fenômeno social, que sustenta práticas políticas, estabelece campos de força não sendo um fenômeno apolítico ou neutro, mas inserida em contextos culturais que lhe dão peso. Gosto da perspectiva exposta, por exemplo, por Rafael Capurro, para quem “nenhuma Ciência da Informação que não perceba a dimensão social de seu objeto de investigação pode subsistir no século XXI”. O que mais te interessa hoje na Ciência da Informação? Como os seus trabalhos anteriores te levaram a isso e o que você espera realizar nesse sentido? Acho que a resposta anterior responde, de certa maneira, a questão posta aqui. Minhas pesquisas se guiam por inquietações no campo social a partir da perspectiva de como criar as condições para a circulação dos diferentes sentidos que os sujeitos e grupos produzem, sem o que a consolidação democrática não se dá. A questão do outro — o reconhecimento da alteridade, o drama do reconhecimento — talvez seja hoje a questão política central. Quais problemas e potenciais você vê na pesquisa em Ciência da Informação na atualidade? Creio que a Ciência da Informação ainda não trabalha de maneira adensada a questão da dimensão social das ações de informação, a interface entre informação e cultura e a reflexão crítica necessária ao adensamento teórico que leve a aplicações práticas. A tão propalada interdisciplinaridade permitiria uma grande abertura ao estabelecimento de novas relações no campo da Ciência da Informação que ampliaria o escopo das discussões. O que significa pesquisa para você? O que significa trabalhar com pesquisa? Significa transformar uma inquietação, algo que nos alcança na dúvida, em um trabalho de interrogação, de reflexão e de crítica a partir de conceitos e teorias, de trabalho de campo, que nos permita elevar a um outro patamar aquilo que experimentamos como problema. O que você (critérios, técnicas, posturas) aprendeu durante o trabalho que acabou por balizar a sua prática? Que conselhos daria, de forma geral, ao pesquisador em atividade?  Que não é possível fazer pesquisa sem comprometimento, sem uma ampla compreensão daquilo que o passado engendra como questões para o presente, e que nós, no presente, interrogamos de maneira crítica para abrir possibilidades de pensar não apenas o presente, mas sentidos para o futuro. E que pesquisar exige ousadia. *** Esta matéria prossegue nossa série de entrevistas com pesquisadores. A primeira foi com Marivalde Francelin, meu orientador.

A Serventia da Teoria, para Manuel Castells

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O sociólogo Manuel Castells, em A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura – volume 1: A Sociedade em Rede, descreve os critérios da sua prática: A relevância de uma teoria social, além do conjunto de provas reunidas para respaldar assuntos específicos, deriva, em última instância, da sua capacidade de explicar a evolução social, tanto na sociedade em geral como em algumas de suas dimensões, ou de, pelo menos, gerar uma interpretação mais fértil do que os arcabouços analíticos alternativos usados para estudar os determinantes e as consequências da ação humana no tempo e no espaço da análise. (p. III) A justificativa do esforço teórico pela sua potencialidade explicativa, me parece, é um tópico comum da filosofia da ciência. Sendo uma ferramenta, vale pelo que permite fazer. Em um sentido levemente distinto, Castells diz: Teoria e pesquisa só servem se têm a capacidade de dar sentido à observação de seu objeto de estudo. O valor da pesquisa social não deriva apenas da sua coerência, mas também da sua relevância. Não se trata de um discurso, mas de uma investigação. (…) Existe um eco claro entre as principais questões da nossa sociedade e as análises escritas há uma década no livro que você está prestes a ler. Se você acha que a abordagem que propus, apesar de todas as suas falhas óbvias, está relacionada à sua experiência, esse é todo o consolo de que este autor necessita para desvanecer em paz. (p. XXIX-XXX) Nesse trecho, a tarefa é também se comunicar com o universo do leitor; não só explicar o mundo, mas expressar o que as subjetividades particulares perceberam — porém em um arcabouço maior. Dialogar e expandir.

Depoimento de Aracy Amaral no Seminário Arquivos, Mulheres e Memórias

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perfil Encerramento do seminário, pela jornalista, crítica e historiadora da arte Aracy Amaral. Narrativa rica, forte, cheia de personalidade. notas Aracy se diz “viciada em pesquisa” e “ensandecida com a pesquisa” “Eu sou bem década de 1950, que era quando tudo acontecia em São Paulo” Contra estéticas abstratas: “Eu quero dados corretos, concretos, eu quero a obra” Autodefinição: “Eu sou pesquisadora, eu não sou teórica. Eu não tenho teorias, eu apresento os dados” Diagnóstico: hoje há artistas entre aspas: apenas editores, não criam formas Ciclo de vida criativa do artista: na juventude, “o recado mais forte, mais virulento”, desta explosão inicial até uma cristalização ulterior “A única coisa constante na América Latina: a nossa instabilidade” Pisar com o próprio pé: refazia os caminhos percorridos pelos jesuítas a pé, de ônibus, para ver com os próprios olhos as obras arquitetônicas Crítica ao sistema da crítica: publicação em mídias acadêmicas sem repercussão, imposta pelo sistema de pontuação; esquema deletério acesso página do evento

Seletividade Informacional em Faulkner

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O tema da information avoidance — da seletividade informacional que constrói realidades ao gosto do freguês —, foi recentemente foi tratado em uma matéria da Universidade Carnegie Mellon, que afirma: […] people have a wide range of other information-avoidance strategies at their disposal. They also are remarkably adept at selectively directing their attention to information that affirms what they believe or that reflects favorably upon them, and at forgetting information they wish were not true. O artigo ressalta a marca dessa questão na nossa época… We live in an unprecedented “age of information,” but we use very little of it. Dieters prefer not to look at the calories in their tasty dessert, people at high risk for disease avoid screenings and people choose the news source that aligns with their political ideology. …mas a questão (entre outros lugares possíveis, é claro) aparece já em 1932, no livro Luz em Agosto, do escritor americano William Faulkner: Com o tempo, a cidade esqueceu ou perdoou, por Hines ser velho e inofensivo, o que num jovem teria crucificado. Apenas diziam: “Eles são doidos; doidos na questão dos negros. Talvez sejam ianques”,  e deixavam por isso mesmo. Ou talvez o que a cidade perdoasse não fosse a dedicação pessoal do homem à salvação das almas dos negros, mas o público ignorar do fato de que eles recebiam aquela caridade das mãos de negros, pois é próprio da mente descartar aquilo que a consciência se recusa a assimilar. Assim, durante vinte e cinco anos, o velho casal não tivera nenhum meio de sustentação visível, a cidade fechando o olho coletivo para as mulheres negras e as panelas e pratos cobertos, em particular porque alguns pratos e panelas muito provavelmente haviam saído intactos das cozinhas dos brancos onde as mulheres cozinhavam. Talvez isso fosse uma parte do descarte mental. [p. 298; grifos nossos] Os elementos importantes são a decisão de negar a absorção dos dados e a ideia de descarte, de jogar fora — trata-se de uma operação ativa, assim como o seu oposto. É interessante como essa manutenção da ignorância é usada para estabilizar o grupo social (“fechando o olho coletivo”), que poderia ser abalado pela novidade. Alvin Toffler, em O Choque do Futuro, fala de como para conter a influência negativa de um ritmo acelerado de impressões, os indivíduos se aferram a “estilos de vida”, a identidades pré-definidas, que lhes dão filtros. Faulkner talvez retrate um momento primitivo do mesmo fenômeno. Isso coloca em contexto a dificuldade do desafio apontado pela Carnegie Mellon: “An implication of information avoidance is that we do not engage effectively with those who disagree with us,” said Hagmann, a Ph.D. student in the Department of Social and Decision Sciences. “Bombarding people with information that challenges their cherished beliefs — the usual strategy that people employ in attempts at persuasion – is more likely to engender defensive avoidance than receptive processing. If we want to reduce political polarization, we have to find ways not only to expose people to conflicting information, but to increase people’s receptivity to information that challenges what they believe and want to believe.” Aumentar essa receptividade pode implicar em confrontar identidades arraigadas. Como tornar essas autodefinições sociais e individuais mais permeáveis?

As Falácias da ‘Democracia Racial’

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Inácio Strieder, no artigo “Democracia Racial a Partir de Gilberto Freyre“, demonstra as limitações do conceito de democracia racial. Em primeiro lugar, a ideia do sociólogo é inconsistente do ponto de vista das suas pressuposições — de uma pacificidade originária no trato entre colonizador e colonizados, por exemplo: Isso, no entanto, nem sempre ocorrera de forma pacífica e respeitosa. Não poucas vezes o colonizador demonstrara sado-masoquismo na exploração e opressão das fêmeas índias e africanas. Freire fala de uma verdadeira ‘intoxicação sexual’ no Brasil colônia, em que muitos portugueses ‘se atolaram no pecado da carne’, inclusive sifilizando as populações indígenas e africanas.” [p. 12] A miscigenação, portanto, não foi apenas resultado de uma prazerosa confraternização de raças, mas consequência de uma terrível opressão do homem pelo homem. [p. 16] Há uma violência radical por trás da candidez desenhada por Freyre, nesses casos devastadores de estupro, citados por Strieder, e na tortura institucionalizada da escravidão. De todo modo, as noções de Freyre tiveram ao menos um papel positivo, que foi o de confrontar uma cultura mais abertamente racista: Até a publicação de Casa Grande & Senzala, por Gilberto Freyre, em 1933, predominava no Brasil a tese de que o atraso brasileiro se devia ao mal da mestiçagem. Acreditava-se, inclusive, num branqueamento progressivo da população. Neste sentido, o projeto de imigração para o Brasil, desde a independência do país, em 1822, visava trazer apenas populações brancas. As elites políticas acreditavam numa diferença racial essencial. Por isso, uma imigração de negros norte-americanos para o Brasil foi rejeitada. (…) Ainda hoje candidatos a cargos políticos, provenientes das elites, afirmam que seus adversários, oriundos de classes trabalhadoras, ou com características raciais não-brancas, não estão qualificados para assumirem cargos majoritários na sociedade. Não os qualificam apenas como desiguais, mas como diferentes. Pois as desigualdades se poderiam superar, mas as diferenças não. Nesta linha ideológica de qualificação dos cidadãos, os negros, os índios, os mestiços e os mulatos são considerados ‘contingentes raciais’ inferiores aos brancos. E, por isso, fatores de atraso nacional. Este modo de pensar fez com que até hoje as elites políticas brasileiras nunca tivessem feito um projeto sério e eficiente de inclusão das populações negras, indígenas e mestiças no desenvolvimento nacional. [p. 14] A descrição feita por Freyre, porém, é apropriada em uma estratégia de negar o conflito social, acobertar a questão racial sob uma pátina de igualdade a priori: Embora Gilberto Freyre não use o conceito da ‘democracia racial’ em seus escritos, contudo foi ele que provocou a discussão acadêmica sobre este tema (…). Interessante é que os políticos e latifundiários, já na metade do século XIX, proclamavam o Brasil como um “paraíso racial”. Mesmo assim, preocupavam-se em trazer ao Brasil exclusivamente trabalhadores europeus de raça branca. (…) Na compreensão dos proprietários de terras, os imigrantes europeus contribuiriam na expansão da produção agrícola, na modernização da força de trabalho e no ‘embranquecimento’ da população. Com base em tais ideias, foi montado o projeto de imigração do governo brasileiro (…). O projeto imigratório brasileiro fundamentava-se, portanto, num conceito ideológico racista. Gilberto Freyre, com seus estudos sobre o período colonial, intensificou a imagem do ‘paraíso racial’ brasileiro.” [p. 20] Dito em outras palavras, a “democracia racial” servia bem ao discurso, ao passo que as práticas continuavam outras, fazendo a manutenção da hegemônia branca e continuando o “embranquecimento” do país. Assim, mesmo se a mistura de povos tenha gerado uma população de cultura e raízes múltiplas, o que dissuadiaria a discriminação, essa situação equilibrada não ocorreu de fato: Sem dúvida, a miscigenação histórica, e a posterior imigração de múltiplas etnias na Íbero-América, construíram a base para uma sólida e perene ‘democracia racial’ em nosso Continente. Na verdade, contudo, hoje falta ainda muito para que esta ‘democracia racial’ seja assumida na convivência efetiva dos cidadãos brasileiros e ibero-americanos, em geral. Na maioria dos países da Íbero-América ainda existem exclusões e discriminações vergonhosas em relação a contigentes populacionais com características predominantemente indígenas e negras. Muitas destas populações se encontram em lamentável situação de miséria. Permitir a continuidade de situações de miséria de contingentes populacionais questiona a legitimidade de qualquer democracia, no sentido moderno. [p. 13] Essa discrepância entre discurso e realidade é mais amplamente exposta na seção 2 do artigo, “A Situação de Fato”. Além dessa parte, este trecho é sintomático: Gilberto Freyre contribuiu, certamente, para um encaminhamento político futuro da questão racial no Brasil. (…) Mas também não se pode alegar a existência efetiva de uma ‘democracia racial’ num país onde existe uma terrível discriminação e exclusão racial-social. A política brasileira, sob a alegação de que na democracia todos os cidadãos são iguais perante a lei, sempre se omitiu de executar projetos orientados para a inclusão das populações provindas da escravidão, e dos grupos indígenas marginalizados pelo processo colonizador. Por isso, hoje, no Brasil, nos encontramos diante duma situação social tragicamente escandalosa. Os miseráveis das favelas, os sem-teto e os sem-terra, os prisioneiros, os analfabetos e os alienados de todas as formas são, em sua maioria, descendentes dos escravos e dos indígenas. Os rostos destas pessoas não refletem nada desta bela ‘metaraça’ morena brasileira. [p. 27] Os efeitos da “democracia racial” de Freyre são, pois, deletérios: Com certeza, a ideologia de ‘raça única’, da ‘metaraça’ de Gilberto Freyre, do ‘paraíso racial’ e da ‘democracia racial’ inibiram movimentos de luta pela igualdade racial no Brasil. E o mito da superioridade racial branca sustenta a mentalidade do racismo científico de que brancos e não-brancos são diferentes, e não apenas desiguais. A desigualdade é possível superar, a diferença não. Desta forma, as elites brasileiras continuam acreditando que o atraso do Brasil se deve ao contingente muito alto da presença negra no país. [p. 24] O combate ao conceito propagado por Freyre e apropriado por camadas dominantes do Brasil é empreendido pelo movimento negro há quase um século. Uma leitura nesse sentido é O Genocídio do Negro Brasileiro, do escritor, artista plástico, dramaturgo e ativista Abdias Nascimento, sobre o qual editei uma publicação.

Pesquisadores x Cientistas

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Ernane Xavier, diretor do Laboratório de Física Aplicada e Computacional da Universidade de São Paulo, propôs uma distinção possivelmente fecunda entre pesquisadores e cientistas: (…) é razoável pensar que na universidade existem os pesquisadores, aqueles que usam o método científico e formam pessoas, publicam artigos, lecionam e executam tarefas administrativas e de gestão, e existem os cientistas, que são aqueles que dentro da universidade realizam as mesmas tarefas que os pesquisadores mas que não se limitam às verdades absolutas e observam o mundo como que cercado por paradigmas a serem transpostos, e que, para estes, a natureza é um livro escrito em uma linguagem que não compreendemos, e têm a humildade de admitir que o pouco que sabemos deste livro é apenas uma tradução mal feita. O trecho é algo obscuro, mas no contexto do texto (“Negros escravos cientistas e seus descendentes brasileiros esquecidos“) a conceituação se torna clara: de um lado estão profissionais contratados, do outro está uma capacidade humana geral — que os profissionais, é claro, possuem e praticam — de “engenhar”, de solucionar problemas. Talvez uma maneira mais simples de captar o sentido do que o autor diz é pensar em pesquisadores/cientistas e inventores, já que essa última palavra é mais larga e não se prende tanto a institucionalidades. Com esse procedimento, Ernani consegue recuar a existência de cientistas negros já à população escravizada, por sua criatividade na luta contra as agruras cotidiana: “Ou seja, o cientista não precisa estar dentro de uma universidade e a ciência não pertence a um grupo específico. Neste contexto, sim!, muitos escravos foram cientistas e vislumbraram o paradigma da liberdade de forma metódica e muitas vezes técnica”. O objetivo disso no texto é por em perspectiva a notícia “Jovem negra de escola pública passa em primeiro lugar no vestibular mais concorrido do país“, dizer: há mais ao longo de toda a história negra do que esses assombros jornalísticos. *** É curioso perceber como a distinção pesquisador e cientista feita por Ernani vai na contramão da concepção de universidade que começa a ser desenvolvida a partir do fim do século XVIII. Como lemos em Organizing Enlightenment: Information Overload and the Invention of the Modern Research University, de Chad Wellmon: Around 1795, scholars at the University of Jena, a hotbed of post-Kantian thought, added another dimension to these projects when they began to offer annual, encyclopedic lectures courses for students of all faculties. Their courses were designed to introduce students not to a specific science, or even the relationship among various classes of sciences, but rather to the particularly scientific character of what they considered authoritative knowledge. The main conclusion of there encyclopedic lectures was that the character of science could not be detached from the character of the scholars. [grifo nosso, p. 96] Aqui, a ciência só é realizada por pesquisadores. Uma das palestras que avançou ideias do tipo foi, ainda segundo Wellmon, a de Johann Heinrich Gottlieb Heusinger, que via na enciclopédia — entendida como ciclo de aprendizado — “an ethical technology designed to form students into particular type of scholars”. Com isso, procurava combater “an ignorance of what ‘science is, and how the man of science (the scholar) distinguishes himself from other people, who don’t at all lack knowledge’” [p. 98]. O pesquisador é definido em oposição ao homem médio, a quem de todo não falta conhecimento, mas a quem faltaria o caráter necessário ao pensamento científico.

Fases Finais do Projeto

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A dissertação de mestrado deve ser depositada e defendida em agosto. Neste momento, portanto, alguns capítulos já vão chegando à sua fase final; os mais avançados são o capítulo 4, que trata do conceito de informação (trazendo um panorama que abrange concepções ontológicas, matemáticas, linguísticas, cognitivistas, socioculturais e materiais), e o capítulo 5, que remonta as manifestações da sobrecarga de informação desde a antiguidade. Conforme eu for fechando os capítulos, vou postando por aqui alguns trechos. Aqui um pedaço do 4: (…) são as necessidades dos grupos (o quem de que tratamos, que se pode resumir em usuários e profissionais de informação) que definem, no fim das contas, o que é informativo, e, por consequência, o que é informação. O que é informativo se refere a uma certa atividade, um momento do ciclo informacional. Por extensão, as “sobrecargas” se dão em relação aos usuários e profissionais e às circunstâncias em que lidam com a informação. O que sobrecarrega depende dessa circunscrição. A geração de conteúdo pode ser excessiva, os resultados das coletas podem ser abundantes demais, as tarefas de organização e interpretação podem demandar um trabalho e um tempo não disponíveis, a carga pode superar a capacidade de armazenamento, a exigência de disseminar, escoar o que se produziu e mantém, pode se tornar lenta e travada. O trecho da pesquisa que analisa o vínculo entre a sobrecarga e a história da Ciência da Informação foi apresentado como comunicação oral no Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (Enancib) ano passado. Leia.

Marivalde Francelin: “Trabalhar com pesquisa é aceitar-se humano”

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Doutor em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo, mestre em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas e graduado em Biblioteconomia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), o professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP Marivalde Francelin fala sobre seus interesses intelectuais, sobre a profissão de pesquisador e sobre perspectivas de desenvolvimento da área em que trabalha: “A sobrevivência de uma ciência como a Ciência da Informação depende da manutenção do pensamento múltiplo, inter, trans e multidisciplinar”. Esta entrevista abre série de conversas com pesquisadores, seguindo as mesmas perguntas e oferecendo curtos panoramas. Marivalde é meu orientador no mestrado, nada mais adequado que começá-la com ele. Conheça também a sua tese de doutorado, “Ordem dos conceitos na organização da informação e do conhecimento“. Como é a sua relação com a Ciência da Informação, por que se interessou em aprofundar-se nesse campo em vez de outros? Estudar a informação é algo fascinante. Você pode pesquisar de temas extremamente abstratos até questões práticas do cotidiano. Ao falarmos de informação também estamos falando do conhecimento, dos sentidos, da linguagem, das pessoas e da própria natureza. A Ciência da Informação permite alcançar níveis de exploração temáticos inviáveis em outras áreas. Um bibliotecário, interessado nas fronteiras dos saberes registrados, certamente também pode investigar as fissuras de algumas barreiras do conhecimento. Olhando de perto, vemos pontos de intersecção, relações de muitos saberes no “comum” da informação. O que mais te interessa hoje na Ciência da Informação? Como os seus trabalhos anteriores te levaram a isso e o que você espera realizar nesse sentido? Tenho interesse em estudos de reflexão e análise das formas de construção de conhecimento, das filosofias e teorias científicas na epistemologia contemporânea. Interesses de pesquisa não mudam, mas são atualizados de acordo com a emergência de novos fenômenos e contextos. Se uma filosofia e uma epistemologia da Ciência da Informação estão dispostas a interagir com as formas de produção de saberes e com os seus espaços de significação, imagino uma teoria voltada à complexidade. A esperança não é para esta ou qualquer outra pesquisa, mas para toda a Ciência da Informação. Infelizmente, a radicalização burocrática, o dogmatismo científico e o autoritarismo acadêmico desconectam os saberes e estimulam uma nova espécie de “unidimensionalização”. Em estudos recentes, a preocupação maior não é com os impactos das técnicas, mas com o possível esquecimento do pensar a razão e do abandono das experiências sensíveis e intuitivas. A sobrevivência de uma ciência como a Ciência da Informação depende da manutenção do pensamento múltiplo, inter, trans e multidisciplinar. Quais problemas e potenciais você vê na pesquisa em Ciência da Informação na atualidade? Os problemas da Ciência da Informação não são diferentes daqueles das Ciências Humanas, em especial das Ciência Sociais Aplicadas. A tentativa de solucionar problemas imediatos da realidade está descaracterizando essas ciências. Não se trata de algo bom ou ruim, apenas de uma postura incompreensível e sem precedentes de uma parte significativa da comunidade científica. O imediatismo foge à essência do pensamento ao criar a cultura da mudança instantânea de paradigmas, legitimada em normas, diretrizes e regras orientadoras momentâneas do próprio pensar. Assim, o “pensamento” parece se transformar em um requisito protocolar. Trata-se somente de uma suposição, mas essa nova maneira de “pensar” e de “conhecer”, portanto de fazer “ciência”, também representa outra mudança no conceito informação. Se há uma mudança na forma de pensar, há mudança nas formas de conhecer e informar. O paradigma da informação já está estabelecido na sociedade, resta saber se a Ciência da Informação continuará a ignorá-lo. O que significa pesquisa para você? O que significa trabalhar com pesquisa? Pesquisa é ação teórica e prática. Seria difícil imaginar uma pesquisa sem processo, sem acontecimento. Mas, neste caso, “ação” significa pensamento. Usar a razão para pensar e construir conhecimento é um desafio para qualquer pesquisador. Talvez a ética da razão nunca foi ou será desinteressada, mas a real virtude do pensamento está nas pulsões, nas vontades e nos desejos de compreender, contemplar e conhecer. Trabalhar com pesquisa é aceitar-se humano. O que você (critérios, técnicas, posturas) aprendeu durante o trabalho que acabou por balizar a sua prática? Que conselhos daria, de forma geral, ao pesquisador em atividade?  Sem definições prontas ou correntes da moda, posso afirmar que meu aprendizado ainda continua e, cada vez mais, sinto a necessidade de retomar questões iniciais, as primeiras perguntas. Além dos próprios critérios, das próprias técnicas e posturas, o exercício sensível de contemplar o “ao redor” é um grande desafio. Pensar o próprio conhecimento sem ignorar o conhecimento dos outros é um exercício doloroso, mas “libertador”. Meu conselho é que devemos duvidar de conselheiros e mais ainda daqueles que se creem aconselhados.

início.

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Bom, este blog servirá para discutir os temas com que lido na academia: Ciência da Informação, área do meu mestrado; Filosofia, área da minha segunda graduação e que aparece transversalmente na dissertação; e Gestão Cultural, área que estudei na minha especialização. Vamos ver, vamos ver, tomara que o percurso seja interessante.