Marivalde Francelin: “Trabalhar com pesquisa é aceitar-se humano”

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Doutor em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo, mestre em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas e graduado em Biblioteconomia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), o professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP Marivalde Francelin fala sobre seus interesses intelectuais, sobre a profissão de pesquisador e sobre perspectivas de desenvolvimento da área em que trabalha: “A sobrevivência de uma ciência como a Ciência da Informação depende da manutenção do pensamento múltiplo, inter, trans e multidisciplinar”. Esta entrevista abre série de conversas com pesquisadores, seguindo as mesmas perguntas e oferecendo curtos panoramas. Marivalde é meu orientador no mestrado, nada mais adequado que começá-la com ele. Conheça também a sua tese de doutorado, “Ordem dos conceitos na organização da informação e do conhecimento“. Como é a sua relação com a Ciência da Informação, por que se interessou em aprofundar-se nesse campo em vez de outros? Estudar a informação é algo fascinante. Você pode pesquisar de temas extremamente abstratos até questões práticas do cotidiano. Ao falarmos de informação também estamos falando do conhecimento, dos sentidos, da linguagem, das pessoas e da própria natureza. A Ciência da Informação permite alcançar níveis de exploração temáticos inviáveis em outras áreas. Um bibliotecário, interessado nas fronteiras dos saberes registrados, certamente também pode investigar as fissuras de algumas barreiras do conhecimento. Olhando de perto, vemos pontos de intersecção, relações de muitos saberes no “comum” da informação. O que mais te interessa hoje na Ciência da Informação? Como os seus trabalhos anteriores te levaram a isso e o que você espera realizar nesse sentido? Tenho interesse em estudos de reflexão e análise das formas de construção de conhecimento, das filosofias e teorias científicas na epistemologia contemporânea. Interesses de pesquisa não mudam, mas são atualizados de acordo com a emergência de novos fenômenos e contextos. Se uma filosofia e uma epistemologia da Ciência da Informação estão dispostas a interagir com as formas de produção de saberes e com os seus espaços de significação, imagino uma teoria voltada à complexidade. A esperança não é para esta ou qualquer outra pesquisa, mas para toda a Ciência da Informação. Infelizmente, a radicalização burocrática, o dogmatismo científico e o autoritarismo acadêmico desconectam os saberes e estimulam uma nova espécie de “unidimensionalização”. Em estudos recentes, a preocupação maior não é com os impactos das técnicas, mas com o possível esquecimento do pensar a razão e do abandono das experiências sensíveis e intuitivas. A sobrevivência de uma ciência como a Ciência da Informação depende da manutenção do pensamento múltiplo, inter, trans e multidisciplinar. Quais problemas e potenciais você vê na pesquisa em Ciência da Informação na atualidade? Os problemas da Ciência da Informação não são diferentes daqueles das Ciências Humanas, em especial das Ciência Sociais Aplicadas. A tentativa de solucionar problemas imediatos da realidade está descaracterizando essas ciências. Não se trata de algo bom ou ruim, apenas de uma postura incompreensível e sem precedentes de uma parte significativa da comunidade científica. O imediatismo foge à essência do pensamento ao criar a cultura da mudança instantânea de paradigmas, legitimada em normas, diretrizes e regras orientadoras momentâneas do próprio pensar. Assim, o “pensamento” parece se transformar em um requisito protocolar. Trata-se somente de uma suposição, mas essa nova maneira de “pensar” e de “conhecer”, portanto de fazer “ciência”, também representa outra mudança no conceito informação. Se há uma mudança na forma de pensar, há mudança nas formas de conhecer e informar. O paradigma da informação já está estabelecido na sociedade, resta saber se a Ciência da Informação continuará a ignorá-lo. O que significa pesquisa para você? O que significa trabalhar com pesquisa? Pesquisa é ação teórica e prática. Seria difícil imaginar uma pesquisa sem processo, sem acontecimento. Mas, neste caso, “ação” significa pensamento. Usar a razão para pensar e construir conhecimento é um desafio para qualquer pesquisador. Talvez a ética da razão nunca foi ou será desinteressada, mas a real virtude do pensamento está nas pulsões, nas vontades e nos desejos de compreender, contemplar e conhecer. Trabalhar com pesquisa é aceitar-se humano. O que você (critérios, técnicas, posturas) aprendeu durante o trabalho que acabou por balizar a sua prática? Que conselhos daria, de forma geral, ao pesquisador em atividade?  Sem definições prontas ou correntes da moda, posso afirmar que meu aprendizado ainda continua e, cada vez mais, sinto a necessidade de retomar questões iniciais, as primeiras perguntas. Além dos próprios critérios, das próprias técnicas e posturas, o exercício sensível de contemplar o “ao redor” é um grande desafio. Pensar o próprio conhecimento sem ignorar o conhecimento dos outros é um exercício doloroso, mas “libertador”. Meu conselho é que devemos duvidar de conselheiros e mais ainda daqueles que se creem aconselhados.